Aqui apresento uma forma resumida do meu artigo “Dependência Química: os discursos que performatizam os usuários”, no qual o consumo de drogas é compreendido como um fenômeno complexo, atravessado por dimensões históricas, sociais, políticas, jurídicas e psicológicas. Ao longo do tempo, os sujeitos que utilizam substâncias psicoativas foram interpretados a partir de diferentes discursos, que não apenas orientaram práticas de cuidado e controle, mas também produziram formas específicas de nomeação, estigmatização e intervenção sobre esses indivíduos.
Historicamente, o uso de drogas esteve associado a concepções morais e religiosas, nas quais o sujeito era visto como pecador ou desviado, sendo alvo de punições ou práticas de “cura”. Com o avanço do discurso médico e das reformas sociais, a dependência química passou a ser compreendida como um problema de saúde, deslocando o foco da criminalização para o tratamento. Ainda assim, esse deslocamento manteve, em muitos contextos, uma lógica reducionista, na qual o usuário passou a ser percebido predominantemente a partir da doença, em detrimento de sua subjetividade, história e condições de vida.
O consumo de substâncias não se apresenta de forma homogênea nem pode ser explicado por um único fator. As drogas assumem funções distintas na vida dos sujeitos, podendo estar relacionadas à tentativa de lidar com o sofrimento psíquico, à busca por alívio emocional, à construção de pertencimento ou ao enfrentamento das exigências impostas pela vida em sociedade. Sob essa perspectiva, o uso de substâncias pode ser compreendido como uma estratégia de enfrentamento do mal-estar humano, conforme já apontado por Freud, e não apenas como um comportamento patológico isolado.
As políticas públicas e os modelos de cuidado em saúde mental refletem diretamente esses discursos. A reforma psiquiátrica brasileira e a consolidação dos Centros de Atenção Psicossocial representaram avanços importantes ao priorizarem tratamentos comunitários e desinstitucionalizados. Contudo, práticas centradas exclusivamente na abstinência e na internação, especialmente quando involuntárias ou compulsórias, ainda permanecem presentes e frequentemente desconsideram a autonomia do sujeito e os determinantes sociais do consumo. Em contraponto, a política de redução de danos se apresenta como uma estratégia ética e clínica que valoriza o cuidado, o vínculo e a preservação da dignidade humana.
Diante disso, torna-se fundamental compreender a dependência química para além de uma leitura moral, criminal ou estritamente biomédica. Os discursos que historicamente performatizam os usuários de drogas produzem efeitos diretos nas formas de cuidado, nas políticas públicas e na vida dos sujeitos, podendo tanto promover acolhimento quanto reforçar exclusões e violações de direitos. A Psicologia, alinhada aos princípios éticos do Conselho Federal de Psicologia, ocupa um papel central na construção de práticas que reconheçam a singularidade, a autonomia e a complexidade humana. Assim, pensar o cuidado em saúde mental exige não apenas intervir sobre o consumo, mas, sobretudo, compreender o sujeito em sua totalidade, promovendo estratégias de cuidado mais humanas, críticas e socialmente responsáveis.
Breno Alves Calil
Dr. Vinícius Novais Gonçalves de Andrade
Bruno Fiuza
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